Postado em 4 de junho de 2019

Um discurso histórico, ou nas marchas civis que diz não ao não

Autor: Humberto Azevedo

 A noite da última quarta-feira, 22 de maio – dia da nossa padroeira Sta. Rita de Cássia, foi histórica para os acontecimentos e os rumos políticos do país. O plenário da Câmara discutia a Medida Provisória 870, editada no primeiro dia do governo Bolsonaro que reestrutura e reorganiza as funções e os órgãos da administração federal direta e indireta. Matéria reles que toda gestão que se inicia promove. Uns mais, outros menos. Um verdadeiro puxa e estica em que os plantonistas do poder tentam dar e oferecer a sua dinâmica aos servidores que carregam a máquina administrativa.

A matéria em si que tira e põe os organismos de acordo com a visão dos governantes – apesar de discordâncias aqui e ali, não é polêmica. Ou não deveria ser. Mas como tudo diante de naus que navegam em mares nunca dantes penetrados impõe a discussão do momento. Camuflado de combate à corrupção um dispositivo se torna o cavalo de batalha que ora a sociedade brasileira trava num momento agudo e também único da vida pátria. A definição de que o órgão responsável por fazer o acompanhamento das movimentações financeiras de todos nós deve ficar subordinado e na tutela do ministro dos ministros – o maior de todos – para auxiliá-lo em sua cruzada do “bem” contra o “mal”.

Como é de se esperar, a reação não seria muito bem-vinda à ideia de tornar o ex-juiz da maior operação policial e judicial do país um superpoderoso acima de tudo e de todos, inclusive de Deus, com os instrumentos necessários para definir o destino de quem quer que seja. Uma união da direita à esquerda e garantida pela turma do “centrão” estabeleceu-se para limitar a atuação do aspirante a Jeová. E de quebra, para mandar um recado bem claro, devolveram-lhe a entidade responsável pelos nossos nativos que desde 1910 no governo do presidente Hermes da Fonseca passou a gerir as primeiras políticas indigenistas que até então eram entregues ao jugo do catequismo católico.

Tal decisão de outorgar o controle do monitoramento financeiro ao julgo da pasta responsável pelas políticas de segurança pública denota – nem mais, nem menos – o caráter autoritário que se pretende em escala global impor-se como alternativa aos regimes democratas. E, assim estabelecido, tutela-se a sociedade nos ditames que impedem o livre-arbítrio tão caro aos nazarenos que se tornam novamente escravos de Mamon. E para evitar esse desatino impôs-se a voz do não ao não de um baiano que lidera a maior agremiação conservadora do país cofundadora da Nova República que concedeu de volta os direitos e as liberdades civis ao povo brasileiro.

Como em toda peça de oratória que se destaca ao longo da história, o pronunciamento de Elmar Nascimento demarca os limites da democracia e da civilidade – ambos tão ameaçados como nunca nestes tempos contemporâneos. Natural de Campos Formoso – município encravado no semiárido nordestino, o aliado do prefeito soteropolitano ACM Neto transformou sua pauta ao longo do discurso na defesa da pluralidade de ideias e de opinião. De sua fala, de improviso, nasceu o marco de resistência ao totalitarismo que falsos democratas e liberais pretendem implantar. Quanto mais falava e era interrompido por “moleques” como ele respondia, o discurso ganhava uma proporção que nem ele, nem ninguém, poderia imaginar.

Suas palavras entraram verdadeiramente para os anais da história quando também em discursos dos últimos 50 anos fincaram raízes na defesa da democracia, do Estado de Direito e das liberdades civis discursos pouco pretensiosos, mas que ganharam vidas próprias, como os pronunciamentos de Márcio Moreira Alves, Mário Covas, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães nas décadas de 60, 70 e 80. A postura de Elmar Nascimento na última quarta o coloca no mesmo patamar de Petrônio Portella então presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena) que dava sustentação política ao regime militar e que por suas mãos iniciou o processo de fim da censura.

“Virem de costas, podem virar. Coisa de moleque! Procedimento de moleque! Vai, vai! Podem vaiar. Tenho 26 anos de vida pública e não aponto o dedo para ninguém. Mas não tenho um processo, um inquérito, uma investigação. Puxem a ficha de vocês, puxem a folha corrida de vocês. Eu não mexo com laranja, eu não tenho plantação de laranja. (…) Sobre a estrutura administrativa, eu sempre fui a favor de darmos ao governo a oportunidade de votar o que quiser, o que quiser criar. Nós fizemos 62 votações nesta Casa até ontem. Em 61 delas o meu partido acompanhou a mesma orientação do líder do governo, e dizem que nós somos contra o governo. Eu defendo a pauta econômica. Nós temos blindado o ministro Paulo Guedes. Nós temos defendido a retomada do crescimento econômico do país. (…) Agora, pauta de perseguição às pessoas que pensam diferente, pauta para perseguir homossexual, pauta de uso de arma, essas não terão o nosso apoio”, exclamou.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).