Postado em 27 de maio de 2020

A decisão de Celso de Mello e as mais de 20 mil mortes

Autor: Humberto Azevedo

Esta sexta-feira, 22 de maio, dia de Santa Rita de Cássia, amanheceu com os ares de dúvida sobre o que viria a ter no conteúdo da reunião ministerial do governo brasileiro ocorrido em 22 de abril. Tudo isso porque o país saberá integralmente, ou parcialmente, o que aconteceu no encontro que o presidente Jair Bolsonaro teve com seus ministros naquela data. Tal ato foi considerado preponderante para a saída do ex-juiz da operação Lava Jato, Sérgio Moro, do Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Mesmo sem saber se o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, decidirá pela ampla divulgação, ou não, do vídeo do encontro que já foi devidamente apelidado nos bastidores do poder de reunião do fim do mundo. Nela, dizem alguns que participaram da referida reunião, rolou xingamentos desde os ministros da Suprema Corte até ao governo chinês, maior parceiro comercial do Brasil.

Colegas de Celso de Mello no STF contaram a alguns jornalistas que o ministro responsável pelo inquérito que pode resultar em ações criminais contra o presidente Bolsonaro, ficou estupefato com o conteúdo da reunião ministerial. A aposta, até esta última quinta-feira, 21, é que o ministro decano (o mais longevo daquela Corte) e, por conseguinte, mais velho do STF autorizaria a divulgação de quase toda a reunião. Entretanto, como Celso de Mello é tido como um jurista tradicionalista do Direito brasileiro, não seria de se surpreender com uma sentença restritiva que permitisse apenas a divulgação parcial do encontro.

Mas, de qualquer forma, seja o conteúdo todo conhecido, ou não, o estrago político sobre a gestão Bolsonaro já se deu. Isso porque Bolsonaro que se elegeu com os seus radicais, em 2.018, sustentado pelas forças de centro e do mercado financeiro, unidos para evitar uma possível volta do PT ao poder, vai perdendo cada vez mais apoio de setores centristas e liberais, tanto no meio político, quanto na sociedade, e ficando com o que lhe resta para sobreviver: um bando de malucos radicalizados e os aproveitadores de sempre das benesses de governos sejam em que governos for.

Tudo isso é ilustrado pela mais nova pesquisa encomendada pela XP investimentos, onde 50% dos brasileiros avaliam que o governo Bolsonaro é ruim, ou péssimo. Para 23% da população, a gestão bolsonarista é regular e 25% avalia como ótima, ou boa. Tais índices demonstram que Bolsonaro volta a ter números idênticos ao início da campanha eleitoral de 2.018. E que sua situação é ainda muito melhor a que Dilma e Temer enfrentaram em seus mandatos. Dilma caiu quando o nível de apoio ao seu governo era de 9%. Temer, que não caiu, chegou a ter o pior índice de apoio dos brasileiros, desde Collor, com 7%.

Ou seja, Bolsonaro pode até permanecer no cargo, mas pouco, ou nada, poderá fazer. Isso porque, suas pautas, não serão muito bem-vindas tanto no parlamento, quanto no Poder Judiciário. E, claramente, os excessos serão defenestrados. Na economia, onde o político da extrema-direita abraçou as teses ultraliberais do economista Paulo Guedes para ganhar a simpatia dos endinheirados terá que sofrer um revés. Agora, ou mais para frente. Visto que tais medidas não estão sendo aceitas pela população. E a pandemia do novo coronavírus só serviu para jogar para bem longe essas ideias.

57% dos brasileiros ouvidos pelo instituto contratado pela corretora financeira XP afirma que os rumos econômicos está no caminho errado. Apenas 28% dizem que as teses ultraliberais de Paulo Guedes estão corretas e devem continuar sendo adotadas pelo governo brasileiro. Tal indicativo aponta que é questão de tempo a economia brasileira começar a seguir o trilho do Plano Pró-Brasil, anunciado pelo ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, de retomar o crescimento econômico amparado nas teses do nacional desenvolvimentismo.

E tudo isso em meio a pandemia do novo coronavírus que já matou mais de 20 mil brasileiros até quinta-feira, 21. Doença que infectou, até então, mais de 310 mil cidadãos do país e que já nesta sexta-feira, 22, fará com que o Brasil se torne a segunda nação, no mundo, mais atingida pela doença no número de casos. Atrás apenas dos Estados Unidos da América. Quanto a letalidade da doença, ocupamos a quinta colocação, atrás de EUA, Reino Unido, Itália e Espanha.


* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).