Postado em terça-feira, 24 de novembro de 2020 às 15:03
Atualizada em quarta-feira, 25 de novembro de 2020 às 11:02

Atos de injúria racial contra padre geram repercussão e repúdio

Diocese repudiou as ações que teriam partido deum casal de fiéis da Paróquia São José e Nossa Senhora das Dores.


Alessandro Emergente

Um sacerdote, da Paróquia São José e Nossa Senhora das Dores, foi vítima de injúria racial, o que gerou repúdio nos últimos dias. No último domingo uma nota de repúdio ao ato de injúria racial e de apoio ao padre Riva Rodrigues de Paula, de 42 anos, divulgada pela Diocese de Guaxupé, foi lida durante as celebrações.

As atitudes criminosas teriam partido de um casal, que frequenta a Igreja Matriz, e teria feito ligações a paróquia e feito ofensas ao padre. Em um telefonema à secretaria paroquial, o casal teria dito que deveriam ser avisados quando o padre preto fosse celebrar a missa, porque eles não gostam de negro, relatou o padre em reportagem do jornal Estado de Minas.

As injúrias raciais continuaram e, na Semana da Consciência Negra, o casal teria cometido novamente o crime, previsto no artigo 140 do Código Penal. “O casal chegando para celebração perguntou se era o padre preto fedido que iria celebrar a missa de novo”, afirmou o padre.

O padre foi vítima de injúria racial (Foto: Reprodução/Redes sociais)


O padre Riva chegou em Alfenas há dois meses e é o primeiro vigário paroquial negro da Paróquia. Diz, no entanto, que não é a primeira vez que foi vítima de atos racistas. Em 2013, ele passou por situações semelhantes em Poços de Caldas.

Preferiu conscientizar

O religioso ainda não registrar boletim de ocorrência e diz ter optado pela conscientização. “As palavras tem um impacto muito grande sobre nós. Mas rezando, eu optei pelo desabafo, pela denúncia e levar o nosso povo a conscientizar, que nenhum tipo de preconceito é bem-vindo na nossa sociedade”, afirmou.

Apesar de não registrar um boletim de ocorrência, o padre não descarta medidas legais caso as injúrias raciais continuem. Ele conversou com um delegado e, por enquanto, prefere conscientizar os fiéis.

O caso ganhou grande repercussão. A Coordenadoria de Igualdade Racial de Alfenas publicou uma nota de repúdio na última segunda-feira, no mesmo dia em que alguns vereadores, durante a sessão legislativa, também repudiaram os atos racistas. Uma moção de repúdio também foi aprovada pelo Legislativo. 21ª Subseção da OAB/MG (Ordem dos Advogados do Brasil/Minas Gerais) também publicou nota de repúdio.

O episódio ganhou repercussão na impressa estadual, como Estado de Minas e G1, e foi classificado como injúria racial, previsto no artigo 14 do Código Penal. A injúria racial é quando uma pessoa ofende alguém por conta da cor da pele ou da etnia, enquanto o racismo acontece quando o crime é contra um grupo de pessoas e está previsto na Lei n° 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

No caso da injúria racial o código penal prevê prisão de um a três anos, além de multa. Já o racismo é considerado crime inafiançável e também prevê detenção.

Na semana passada, dia 20, foi celebrado o Dia da Consciência Negra. No ano passado, uma lei municipal instituiu a data no feriado municipal, o que gerou resistência da Acia (Associação Comercial e Industrial de Alfenas).

A negação da existência do racismo

Na sexta-feira, dia da Consciência Negra, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, negou que exista racismo no Brasil. A fala gerou grande repercussão e foi dita logo após o assassinato de um homem negro, um dia antes, por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre (RS).

A negação do racismo é uma das práticas combatidas pelo movimento negro, vista como uma visão que prejudica o enfrentamento do problema. O pensamento do vice-presidente tem origem na tese da “democracia racial” contida no livro “Casa Grande & Senzala”, publicado pelo antropólogo Gilberto Freyre em 1933, mas a tese foi rebatida por uma outra, a do “mito da democracia racial”, elaborada pelo sociólogo Florestan Fernandes no livro “A integração do negro na sociedade de classes”, publicado em 1965.

Fernandes demonstra que o racismo no Brasil se manifesta de forma “camuflada”, sendo a democracia racial, sustentada por Freyre, uma imagem idealizada, que serviu para justificar a posição de dominação racial do branco na sociedade brasileira.



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