Postado em 16 de junho de 2018

Uma sociedade doente

Autor: Alessandro Emergente

O intenso processo de disputas por diferentes matizes ideológicas, que tem sido travado na nossa história recente, seja em ambientes virtuais ou até mesmo nas ruas, deveria ser, em princípio, motivo para comemorações do enrijecimento do cenário de pluralidade de ideias. Entretanto, o ambiente hostil e imaturo do debate não credencia a atos de valorização da maioria dos embates.

E se engana quem imagine que tal cenário seja circunscrito a massa, as discussões “acaloradas” entre militantes e simpatizantes das diferentes correntes ideológicas. Boa parte da camada daqueles que se colocam no debate como analistas, aos quais por dever ético caberia uma busca racional e minimamente neutra (pelo menos um esforço honesto para tal compreensão) para a leitura dos fenômenos políticos, econômicos e sociais, comportam-se como atores deste processo de digladiação, fornecendo instrumentos para o combate.

Nesse sentido, cumprem o papel de “intelectuais orgânicos” numa intensa dialética apaixonada de construção ou desconstrução das diferentes ideologias - como espécie de operários do duelo. Mas alguns podem evocar o aspecto positivo do debate. Porém, a ausência de compromisso com a pluralidade expõe um problema crônico: a unilateralidade dos veículos de comunicação.

A simples recorrência deste artigo a um conceito do sociólogo italiano Antônio Gramsci já poderá ser alvo de críticas acaloradas de setores enviesados mesmo não remetendo ao caráter ideológico. A busca pela hegemonia classista, seja de que lado for, virou a finalidade das análises viciadas pelo ideologismo.

A mídia em debate

Assim, o papel social exercido pelos veículos de comunicação e as questões que o rodeiam (como o modelo de distribuição de concessões de rádio e de televisão e a conceituação do jornalismo numa disputa entre o ortodoxismo clássico e o engajamento) precisam ser minuciosamente colocados em pauta pela sociedade.

Para recorrer aos conceitos do sociólogo francês Émile Durkheim, o contexto social expõe a quebra de uma coesão social. O ódio por quem simplesmente defende posicionamentos contrários provoca cisões perigosas, inicialmente perceptível nas redes sociais, transformadas em campos de batalha. A convivência pacífica no mundo virtual passou a ser plenamente possível por meio das “bolhas sociais”.

Ao ler, no último domingo (10 de junho de 2018), o artigo “Sem novidades, eleição acontece em bolhas e aprofunda divisões” (CLIQUE AQUI), publicado pelo jornalista Bruno Boghossian no jornal Folha de S. Paulo, o cenário remetido é para uma distância temporal considerável para superar o processo que leva a uma anomia social. 

A fragmentação do discurso político em busca de espécie de “bolhas eleitorais” só aprofunda a tensão socioeconômica e o cenário de desintegração, postergando o necessário processo dialógico.

Esse contexto pariu a defesa do autoritarismo, na tentativa de “rasgar” a Constituição Federal de 1988, em contraposição aos ideais democráticos, o que coloca em evidência esse processo de anomia social no sentido patológico posto por Durkheim. O sintoma de uma sociedade doente é a defesa do autoritarismo e a mídia precisa fazer uma auto análise sobre em que medida contribuiu para esse estado patológico.

Alessandro Emergente
Jornalista
Alessandro Emergente é jornalista, graduado pela Universidade Vale do Sapucaí (Univás), e professor de Sociologia, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal). É editor e um dos fundadores do portal de notícias Alfenas Hoje