Postado em sexta-feira, 6 de março de 2020 às 10:01

Informação contra o coronavírus

Mesmo que possa disseminar temor, a circulação livre de notícias e as campanhas de saúde são a melhor proteção para evitar tragédias semelhantes a pandemias do passado...


 O pânico que toma conta do planeta diante da nova variante de coronavírus deverá se espalhar pelo Brasil à medida que se confirmarem novos casos de transmissão doméstica, como o primeiro identificado em São Paulo. A Covid-19 também não deverá tardar a matar por aqui. Naturalmente o brasileiro não será poupado daquilo que a revista médica The Lancet chamou de “infodemia”.

Ninguém deve ter dúvidas: por mais que possa haver exagero na disseminação de notícias, por mais que o surto midiático possa gerar temores infundados, é preferível ter informação demais a ter informação de menos. Em vez de reduzir o pânico, as tentativas de controlar a informação sempre contribuíram para aumentar os riscos e as mortes.

Foi o que ocorreu na epidemia de cólera que matou 18 mil na Itália entre 1911 e 1912, como bem sabem os leitores de A morte em Veneza, de Thomas Mann. Ou na pandemia de gripe espanhola de 1918, quando autoridades minimizavam a gravidade da ameaça e censuravam notícias a respeito. Ou ainda no surto de cólera que o governo de Cuba tentou esconder em 2012.

Também em todos os casos mais recentes das epidemias provocadas pelo coronavírus. Em 2002, a China tratou como segredo de estado o casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e atribuiu o controle das notícias sobre a doença à unidade de propaganda do Partido Comunista Chinês (PCC). Apenas meses depois, em fevereiro de 2003, a notícia de um paciente de Guangzhou chegou às autoridades que monitoravam o surgimento de pandemias e despertou o alarme.

Em 2012, o governo da Arábia Saudita investigou Ali Zaki, virologista responsável pela descoberta da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers). Graças à rapidez de Zaki na identificação e sequenciamento genético do vírus, foi possível evitar que a epidemia se espalhasse. Ele acabou demitido e foi obrigado a deixar o país.

Pelo menos sobreviveu. Ao contrário de Li Wenliang, o oftalmologista que, em dezembro passado, soou o alerta para a Covid-19 em grupos de discussão na internet, foi silenciado e reprimido pelo governo chinês, depois contraiu o vírus e morreu no início de fevereiro. Para não prejudicar as festividades do Ano Novo e as celebrações previstas em Wuhan, a China preferiu a censura e a repressão – e permitiu que a epidemia atingisse todo o planeta.

Na barafunda de notícias, dois tipos de informação sobre a epidemia são cruciais. Primeiro, obviamente, as medidas de precaução e diagnóstico (leia aqui o guia elaborado pelo G1). Segundo, os dois indicadores que medem a gravidade da epidemia: letalidade e velocidade de contágio.

Quanto ao primeiro, há grande variação. A mortalidade global está estável, em torno de 3,4% (a da gripe comum, para a qual existe vacina, é inferior a 0,1%). Mas a Covid-19 matou 3,8% na Itália, 4,3% na província chinesa de Hubei, 3% no Irã e apenas 0,6% na Coreia do Sul (áreas mais afetadas). Parte da dificuldade para medir a mortalidade é explicada por infectados que não apresentam sintomas e nem sempre são contados entre os doentes. Outra parte, pelas diferenças entre os sistemas de saúde de cada país ou perfis demográficos (a Covid-19 mata mais idosos e vítimas de outras doenças).

A existência, no Brasil, de um sistema de saúde centralizado, que já demonstrou eficácia em campanhas de vacinação e combate a outras moléstias, traz alguma tranquilidade. Mas não garante necessariamente que a doença matará menos aqui que noutros lugares. A insegurança ainda é grande justamente por causa do segundo indicador, que mede a capacidade de contágio do vírus.

Conhecido entre os epidemiologistas como R0, ele identifica basicamente o número de pessoas que pegam o vírus de um doente. É o multiplicador usado para estimar a quantidade de infectados no futuro. Quando é inferior a 1, o surto acaba controlado naturalmente com o tempo, já que amanhã haverá menos gente com a doença do que hoje. Foi por isso que a Mers, cujo R0 foi estimado em 0,8, não se espalhou.

No caso da Covid-19, o R0 vem sendo estimado entre 1,4 e 3,8, com uma média de 2,3 (ainda há alta incerteza sobre o valor). Não seria uma doença tão contagiosa quanto o sarampo (R0 entre 12 e 18), mas com certeza mais que a gripe H1N1 que se espalhou em 2009 (R0 entre 1,2 e 1,6). A Covid-19 teria R0 comparável ao da gripe espanhola de 1918 (cujo R0 foi estimado entre 1,4 e 2,8, com média em torno de 2).

A gravidade da pandemia resulta da interação entre os dois índices, letalidade e contágio. Mesmo que uma doença seja altamente contagiosa, pode ser contida por matar os pacientes antes que possam transmiti-la. Foi o que aconteceu no caso do ebola em 2014. Matou em torno de 70% dos infectados sem dar tempo para o vírus se espalhar.

A gripe espanhola, cuja capacidade de contágio era comparável à do ebola (R0 em torno de 2), provocou uma pandemia muito mais grave justamente por matar menos, entre 2% e 3% dos infectados. Entre 1918 e 1919, o vírus se espalhou pelo mundo e, segundo algumas estimativas, deixou 50 milhões de mortos, ou 5% da população mundial.

No caso da Covid-19, ambos os indicadores parecem semelhantes aos da gripe espanhola. A maior arma de que a humanidade dispõe para evitar outra tragédia de proporções semelhantes é a informação. Só ela pode conter o pânico e preparar a população para prevenir o contágio. Precisamos, a todo custo, evitar repetir os erros de cem anos atrás.




Fonte: G1 Mundo



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