Postado em 16 de setembro de 2021

Sentido da Vida: O fogo e a astucia

Autor(a): Roberto Camilo Órfão Morais

 A busca de uma resposta à pergunta realizada pelo conjunto da humanidade, sobre qual o sentido da vida, passa necessariamente pelo enfrentar a dor, como explicitado no ditado de Ernst Junger: “Dize tua relação com a dor, e te direi quem és!”. Ditado incomum em uma sociedade que segundo o Byung-Chul Han, “impera uma algofobia, uma angustia generalizada diante da dor”.

Para elucidar a reflexão sobre o sentido da vida em sua capacidade de incorporar a dor, pode-se recorrer a obra Protágoras de Platão, onde o filosofo grego utilizou-se da mitologia para explicar a condição humana no mistério do mundo e os instrumentos para suplementação dos percalços da vida.

A mitologia citada por Platão relata que após a vitória de Zeus sobre os Titãs, o soberano do Olimpo estabeleceu a ordem Cósmica. Depois de tudo criado e atribuído a cada um o seu lugar, com equilíbrio e harmonia, surge o inesperado, o tédio. De acordo com Friedrich Nietzsche, ‘contra o tédio mesmo os deuses lutam em vão’.

Os deuses em busca de movimento para se distrairem, resolveram criar os mortais, animais e homens. Chamaram para essa tarefa dois deuses irmãos, filhos de Titãs, Prometeu (aquele que pensa antes) e Epimeteu (aquele que pensa depois).

Na criação e organização da coexistência dos seres mortais, Epimeteu, solicitou ao irmão que o deixasse fazer a distribuição das diferentes qualidades entre os animais e assim o fez. Colocou força para os leões, rapidez no correr dos coelhos, resistência nos cascos das tartarugas, capacidade de voar aos pássaros etc. Todos os animais passaram assim a ter uma identidade. O problema é que Epimeteu distribuiu todas as qualidades, não sobrando nada aos seres humanos, deixando Prometeu, em uma situação complicada, já que era ele que deveria definir quais os atributos cómicos a serem colocados nos seres humanos.

Para solucionar o problema, resolveu ao anoitecer roubar o fogo do Deus Hefesto e a astucia da Deusa Atena e colocar esses atributos nos seres humanos. Com esse recebimento os seres humanos passaram a poder criar com o próprio esforço tudo o que precisam, e de superar os limites, transformando a existência em algo repleto de imprevisibilidade.

Diferente do restante dos animais os seres humanos em sua singularidade, conseguem fazer um instante totalmente diferente do outro, possuindo elementos para transpor o tédio, pois não nascemos prontos, a tudo para se criar e fazer a cada momento de nossa existência.

Prometeu sofreu por parte de Zeus severo castigo pelo roubo que fez, mas com sua atitude imprimiu aos humanos a consciência e a capacidade de transcendência, com cede infinita. Segundo Aristóteles “o homem em seu espanto, não apenas vive, mas sabe que vive”, portanto com capacidade de gerar o novo.

Porém o paradoxo do fogo e da astucia é que eles nos fazem livres e o sentido da vida e a incorporação da dor depende de nossas escolhas. Para Walter Benjamin, “A dor apenas, entre todos os sentimentos corporais, é, para o ser humano, um fluxo navegável, com águas que nunca se esgotam e que conduz ao mar.”


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Roberto Camilo Órfão Morais
Professor
Professor de Ciências Humanas do Instituto Federal Sul de Minas - Campus Machado.

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