Postado em 31 de agosto de 2021

Escravidão

Autor(a): Roberto Camilo Órfão Morais

 Em recentes leituras me deparei com um livro fundamental para a compreensão de nossa história e no enfrentamento dos desafios contemporâneos, o segundo volume da trilogia sobre a Escravidão do jornalista e escritor Laurentino Gomes. Através de envolvente narrativa, o autor joga luz a violência e contradições da escravidão no séculos XVIII e início do XIX no Brasil, focando na região mineradora em Minas Gerais. Lembra que no Brasil ocorreu; “a escravização de cerca de 4,9 milhões de africanos, o equivalente a 40% dos 12,5 milhões que embarcaram da África para o continente americano”.

Demonstra que todos os aspectos da vida colonial giravam em torno da escravidão, “No final do século XVIII, a posse de pessoas era generalizada entre os brasileiros, incluindo inúmeros escravos ou negros libertos que tinham seus próprios cativos". Assim reforça o entendimento que um dos grandes desafios a ser superado em nosso processo de formação histórica é que a vítima persegue a própria vítima.

Descreve que na África o impacto do tráfico negreiro foi enorme, desorganizando a economia do continente, “Antigas atividades produtivas, como tecelagem, metalurgias, agricultura e pecuária, foram deixadas de lado sob a pressão do comercio escravista”. Tráfico que gerou lucros exorbitantes a uma elite dominante em Portugal, Brasil e também a governantes africanos aliados dos mercadores de escravos.

Registra a chegada no Brasil Colônia, no século XVIII das ideias iluministas, da independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa, mas que tiveram seus limites ditados pelo sistema escravista. Como por exemplo cita a Inconfidência Mineira, que apesar das influência de ideias libertárias mantinham em seus propósitos a exploração do trabalho escravo.

O autor caracteriza a estrutura do sistema escravista, mas também apresenta seu cotidiano. Relatos como a trágica e macabra história da escrava Luiza Soares, acusada de feitiçaria, torturada e levada ao tribunal da Inquição em Lisboa, onde conseguiu provar sua inocência. A épica existência de Chica da Silva, no arraial do Tejuco, atual cidade de Diamantina. A opulência e a riqueza geradas para Portugal, devido a mineração em Minas Gerais, principalmente durante o reinado de D. João V, este marcado por extravagancias.

Aponta a superação de duas visões da historiografia a respeito do comportamento do negro diante da escravidão. Primeiro a figura do negro passivo e apático celebrado no clássico Casa Grande Senzala de Gilberto Freire e segundo, as ideias nascidas das lutas marxistas, onde o negro estava em permanente estado de rebelião para se livrar do cativeiro.

Discorre sobre novos estudos, que têm levado a um entendimento da complexidade do sistema escravista colonial, “nuances até pouco tempo atrás ignoradas ou subestimadas” que na prática eram formas de resistências. Cita o historiador Ciro Flamarion Cardoso em seus estudos sobre a chamada “brecha camponesa”, que funcionava como válvula de escape, administrada pelos senhores em seus escravos. Criava uma oportunidade para que os cativos comercializassem seus próprios produtos, mantendo vínculos sutis de dominação.

Narra a luta dos escravos que fugiam para milhares de quilombos espalhados pelo Brasil, e que alguns hoje são reconhecidos como comunidades remanescentes, os chamados quilombolas. Evidencia o complexo sistema de apadriamento: “parentesco e alianças que muitas vezes incluíam participar de milícias ou bandos armados para defender os interesses do senhor”. Interessante constatar que a presença de milicianos, não é algo recente na história social e política do Brasil.

O livro Escravidão nos faz perceber que essa recente onda de supremacia branca, intolerância contra os negros, moradores das periferias, tem suas raízes na própria escravidão. Povo negro caracterizado nas palavras do historiador Capistrano de Abre como: “capado e de-capado. Sangrado e de-sangrado.”

Superar as contradições na atual sociedade brasileira é um dos maiores desafios, como afirmou nosso profeta D. Helder Câmara na missa dos Quilombos em 1981, "Não basta pedir perdão pelos erros de ontem é preciso acertar o passo hoje” e penso que o primeiro passo é o de reconhecer a existência de um racismo estrutural, responsável por tantos preconceitos, opressão e violência, ocorridos contra os negros no passado e no presente.


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Alfenas Hoje

Roberto Camilo Órfão Morais
Professor
Professor de Ciências Humanas do Instituto Federal Sul de Minas - Campus Machado.

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