Postado em terça-feira, 10 de julho de 2018 às 12:09

A humildade e isenção fora de série do colunismo de O Globo, por Luis Nassif

Nos grandes veículos globais, o grande diferencial em relação às redes sociais não é a caça a fakenews primários, mas a opinião abalizada, referencial, concorde-se ou não com ela, o estilo sóbrio.


Por Luis Nassif/GGN

Nos grandes veículos globais, o grande diferencial em relação às redes sociais não é a caça a fakenews primários, mas a opinião abalizada, referencial, concorde-se ou não com ela, o estilo sóbrio. Nem se fale de outras virtudes essenciais, como a capacidade de mediação, da busca da informação exclusiva ou da análise diferenciada.

Por aqui, no campo das ideias e das opiniões, não há diferenças substantivas entre a militância blogueira, a retórica das redes sociais, e certo colunismo político.

Confira-se a coluna “E se o eleito for Ciro Gomes?”, de Ascânio Seleme, publicada em O Globo. Ele discute a questão da desnacionalização das empresas brasileiras.

Há uma enorme discussão sobre as diferenças entre empresas sob controle nacional e estrangeiro que remonta o século 19. Nos anos 80 e 90, a pedido do governo norte-americano, Michael Porter produziu um enorme estudo a respeito das vantagens competitivas dos países. Suas conclusões eram a de que a produção interna de tecnologia e inovação eram essenciais para o sucesso de uma economia. Todos os casos bem-sucedidos passavam pelo desenvolvimento de tecnologias próprias. Uma empresa com base no país de origem tende a desenvolver uma rede de fornecedores locais. Quando se lança internacionalmente, leva a rede junto, fortalecendo sistemicamente a economia.

Mais que isso, as empresas locais tendem a responder melhor aos impulsos da política econômica em relação a temas chaves como, por exemplo, a melhoria da balança comercial, além de se integrar com os centros de pesquisa, abrindo mercado para pesquisadores locais. Já as exportações das multinacionais obedecem às estratégias dos centros de comando.

Não se menospreze o papel das multinacionais. Podem ter papel relevante, especialmente quando induzidas a trazer para o país hopedeiro seus centros de pesquisa ou quando entram em áreas pioneiras aportando tecnologia ou desenvolvendo cadeias de fornecedores locais.

Do mesmo modo, há uma intensa discussão teórica sobre a importância e os limites das políticas de proteção à produção nacional. Uma política de conteúdo nacional pela Petrobras, no início dos anos 80, ajudou a criar fortes polos metalomecânicos em Caxias do Sul e Santa Catarina. E, não fosse o golpe, poderia teria feito renascer a indústria naval na última década.

Mas podem induzir a exageros como os tais campeões nacionais, que fizeram com que a JBS desarticulasse setores da pecuária e calçadistas com suas práticas monopolistas.

Levanto essas questões para apontar a complexidade do tema. E a maneira como um assunto dessa magnitude é abordado pelo colunista de O Globo.

Vamos a uma análise de seu artigo:
Os mesmos revolucionários de sempre criticaram duramente a anunciada fusão entre a Embraer e a Boeing (...) Esses neonacionalistas se irritam mais ainda quando se trata da Petrobras.

Ou são velhos revolucionários de sempre ou neonacionalistas. Não há coerência na identificação do alvo a ser atacado.

O curioso é que pessoas e instituições, que aplaudem entusiasticamente quando Jorge Paulo Lemann compra a Budweiser ou a Burger King, enxergam atentado à soberania nacional quando empresas brasileiras se unem, são incorporadas ou apenas compartilham negócios com estrangeiras. Veem no primeiro caso um exemplo da pujança da economia e da capacidade de iniciativa do Brasil e dos brasileiros. E no segundo só conseguem divisar entreguismo”.

É o mesmo que dizer que se a torcida comemora quando o Brasil ganha, tem a obrigação de comemorar quando o Brasil perde. Além disso, há total desinformação. A Inbev é empresa de capital belga. Uma das condições para a venda da empresa, era que os novos controladores manteriam o capital belga. O colunista ignora a obviedade de que a origem do capital não está na nacionalidade do controlador, mas no país onde o capital está registrado.

"Esta lógica, além de burra, é ideológica”.

Não consegue estabelecer uma hierarquia nos adjetivos, colocando a ideologia como um sub-sistema da burrice. O significado da frase é que nem toda burrice é ideológica, mas toda ideologia é burra. Em um texto altamente ideológico, como o dele, certamente não era essa a intenção do autor. Cometer uma inversão dessas para taxar alguém de burro não é uma atitude ideologicamente inteligente.

Francamente, é necessária uma boa dose de desfaçatez para apostar neste jogo. Imaginar que o Brasil vai perder porque a Embraer vira multinacional é besteira”.

Ele trata como sem-vergonhice quem ousa pensar de forma diferente. E o sem-vergonha é "um desses sites engajados, que se travestem de informativos ou jornalísticos” e que "disse que a negociação entre Embraer e Boeing foi “mais um capítulo do golpe de 2016”. E quem rebate com esse nível de argumentos seria o que? Um colunista isento, que só trata os fatos com seriedade, inteligência e objetividade jornalística, é claro.

O Brasil e seus cidadãos ganham mais com a venda da Embraer do que com as aquisições globais feitas por empresas brasileiras. Quantos empregos os brasileiros ganharam com a compra da Budweiser pela Inbev?

Ninguém tem a menor ideia sobre os impactos diretos da compra da Embraer na geração de empregos, os impactos na cadeia de fornecedores, no desenvolvimento tecnológico. E nosso douto colunista já deu sua sentença, inclusive reiterando que a Inbev é uma empresa nacional,

O restante da coluna é uma colcha de retalhos de notas de baixa política, soma de certezas cegas e arrogância muito comuns em blogs e sites engajados.

O título provocativo – “E se o eleito for Ciro Gomes?” – merecia como contraponto: e se o tema fosse analisado por Martin Wolf? Mas, enfim, cada grande veículo tem o Martin Wolf que merece.

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