Postado em 10 de fevereiro de 2019

E o PFL voltou

Autor: Humberto Azevedo

Na última sexta-feira, 1º de fevereiro, se realizou a posse dos novos 594 parlamentares que integram a 56ª Legislatura do Congresso Nacional. Graças a elevada renovação das duas Casas legislativas que aconteceu devido a situação de penúria e de desalento na qual os eleitores se submeteram naquele pleito de 07 de outubro de 2018, uma verdadeira transformação se deu no jogo político praticado no Brasil.

Resultado de um tsunami que proporcionou na eleição, inédita, no país, que preferiu a adoção dos discursos radicais e extremistas, o novo Congresso se fragmentou ainda mais. São tantas as forças políticas erigidas que qualquer cenário vislumbrado se transforma num exercício de difícil compreensão. As velhas forças políticas que até então davam às cartas foram tragadas em meio ao furacão que desde 2013 vem provocando o declínio da maior economia da América Latina.

Em meio a esse turbilhão de confrontos ideológicos que comungam entre si, assistimos hoje no Brasil ao resultado do caos instalado. Caos que perdurará por um período macabro e tenebroso que ainda está por vir. O governo do ex-presidente Michel Temer (MDB) foi apenas a antessala do projeto colonial que voltou a ganhar terreno e estabelecer-se como modelo de desenvolvimento nacional. Não à toa os emedebistas na Câmara, já devidamente acomodados, comandarão as políticas públicas da estruturação social do país no novo governo que se instala.

A base parlamentar do novo governo é formada por uma aliança tríplice entre as bancadas pluripartidárias que se autodeclaram da “bala”, da “bíblia” e do “boi”. Esta união entre agentes da Segurança Pública, religiosos ligados às igrejas neopentecostais e interlocutores do agronegócio formam o cinturão de apoio às medidas e iniciativas do novo governo. Para tanto, como essa “santa aliança” entre estes três agrupamentos que operam no Congresso possuem agendas próprias, diferentes e específicas de cada uma delas, o mecanismo de funcionamento desta coligação se dará em bloco. A pauta de uma será defendida pelas outras duas.

Este cenário será decisivo para a aprovação das iniciativas do governo. Assim a reforma da previdência que ainda não foi apresentada vinculará a sua aprovação a votação do pacotão de medidas que o ex-juiz federal, atual ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, anunciou nesta semana para “combater à corrupção, o crime-organizado e os crimes violentos”. O país tem novos atores que ditarão às regras a partir de agora.

A população elegeu o PSL de Bolsonaro, mas quem mandará – de fato – será o DEM (antigo PFL) que comandará o Congresso. Está certo que os dois personagens do pefelismo não estão à altura da maior figura que o partido já teve em sua história: Antônio Carlos Magalhães (ACM).

Afora a reconquista do poder pelo PFL, na carona que as gigantes ondas bolsonaristas que inundaram as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte do país, a volta do pefelismo representa também o reinício de uma velha polarização bem conhecida da história brasileira que estava aparentemente esquecida e que foi preponderante no Brasil do século XIX e até o ano de 1930, quando disputavam a primazia ora os conservadores, ora os liberais. E o primeiro entrave desta nova velha disputa se dará entre a reforma do sistema previdenciário, proposta cara aos liberais, e o pacotão do ex-juiz Moro, projeto caríssimo aos conservadores. Reunir sob o mesmo manto os interesses de liberais e conservadores será o novo desafio do novo governo carente de figuras agregadoras. Talvez, aí, esteja a vã esperança da oposição de conseguir sucesso nas batalhas que virão em que tentarão resistir – esta é a palavra – a avalanche liberal-conservadora que se anuncia.

(*) Artigo publicado originalmente na edição de 1.168 do jornal O Vale da Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí (MG) de 09 de fevereiro de 2019

Humberto Azevedo
Jornalista e consultor político
Humberto Azevedo é jornalista profissional, repórter free lancer, consultor político, pedagogo com especialização em docência do ensino superior, além de professor universitário, em Brasília (DF).