Postado em 14 de agosto de 2018

Os desalentados

Autor: Daniel Murad Ramos

Pouco tempo atrás grandes empresários, latifundiários, políticos conservadores retomavam o velho discurso de que a CLT era um entrave para o emprego.

O discurso é velho. Na verdade remonta Adam Smith com o “laissez-faire”. Para quem tem a riqueza é fácil assim: “deixem-nos em paz”, o mercado deve ser “livre para fazer”, sem interferências. Nada de regulamentação para defender o elo mais fraco das relações humanas.

E há quem se diga “novo” defendendo isso.

Sim o neoliberalismo defende esta liberdade, que na verdade significa a liberdade do rico explorar o pobre sem limites. É o lógico dentro do interesse das classes abastadas e dominantes.

Mas ao contrário do que se prometeu e foi ecoado pela mídia a reforma trabalhista, além de reduzir direitos e dificultar o acesso à Justiça, simplesmente não reverteu o aumento do desemprego.

O mercado não se preocupa com a vida das pessoas. O mercado, esta entidade divina, não se preocupa com direitos humanos básicos. E o mercado, hoje, aplaude mesmo políticas autoritárias, desde que ele – mercado – tenha liberdade absoluta de explorar. Sim um Estado forte para reprimir opositores e tratar na bala o conflito social, um Estado fraco para garantir direitos fundamentais e sociais. Daí o mercado ter amado Pinochet, que fez do Chile o laboratório do neoliberalismo sob os auspícios de uma ditadura sangrenta e cruel. Daí Trump, nos Estados Unidos e o fascismo ascendente na Europa. Daí o discurso de ódio e medo no Brasil – cultuado por um significativo séquito - ser aplaudido também pelos grandes empresários brasileiros.

O fato é que a economia deveria funcionar para o homem e não o contrário.

Lamentavelmente temos hoje cerca de 4,6 milhões de brasileiros chamados pelo IBGE de “desalentados”. Pessoas que simplesmente deixaram de procurar emprego. E não, não é porque são preguiçosas ou vagabundas, como diriam autoproclamados “homens de bem”. É porque simplesmente não encontram trabalho. Somadas com as pessoas desempregadas que procuram emprego (mais de 13 milhões de pessoas), são o produto do sistema que quer persistir impondo o mantra da retirada de direitos, privatizações, cortes de gastos sociais, renúncia tributária e priorização de impostos indiretos. Austeridade para o pagamento da dívida pública, mas nenhuma importância para a garantia de pagamento da dívida social deste país com seu povo.

O fato é que os preocupados com segurança pública e despreocupados com desigualdade social deveriam lembrar de Cazuza quando fala de “seres humanos vivendo como bichos, tentando te enforcar na janela do carro no sinal”.

Não há outro resultado possível para um país com tantas desigualdades.

Um país de desalento.

Daniel Murad Ramos
Advogado
Foi por duas gestões Presidente da OAB de Alfenas, na qual exerceu também os cargos de Conselheiro e Vice- Presidente. Atualmente é Conselheiro Estadual de OAB de Minas Gerais e Diretor Executivo do Sindicato dos Advogados de Minas Gerais.

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